O PT e a disputa de narrativas sobre o empreendedorismo e a inovação

*Sócrates Santana, Handerson Leite e Edson Valadares
Há números que se apresentam como certezas, como se bastassem a si mesmos, como se, ao serem pronunciados, resolvessem o mundo, o PIB cresce, o desemprego cai, a massa salarial se move, e no entanto, como alguém já disse com a lucidez de quem não se deixa enganar, ninguém come PIB , como diria Aluã Carmo, e talvez por isso o povo, esse grande intérprete silencioso da realidade, continue a desconfiar dos números que não cabem na vida.
Mas há outros números, mais discretos, menos vistosos, que não gritam nas manchetes, e que, ainda assim, dizem mais sobre o que está acontecendo, ou melhor, sobre aquilo que começa a acontecer sem pedir licença.
Falemos, então, das empresas que nascem.
Do nascimento das coisas pequenas
O que é uma empresa nascente senão uma tentativa, uma aposta, uma coragem que ainda não sabe se dará certo, mas que insiste em existir, e o que é o Inova Simples senão o gesto de abrir a porta para essas tentativas, retirando os obstáculos que antes impediam que uma ideia atravessasse o limiar do possível.
Na Bahia há agora 420 empresas ativas no Inova Simples, e alguém poderá dizer, são apenas números, mas não são, são pessoas, são projetos, são expectativas, são pequenas rupturas no tecido antigo da economia.
Daquilo que cresce — e cresce mais que os outros
Convém, no entanto, olhar com mais atenção, porque nem todos crescem da mesma forma, nem no mesmo ritmo, nem com a mesma persistência.
A Bahia, que em março de 2025 contava 248 empresas, chega a abril de 2026 com 420, e este salto, que é de 172 empresas, representa um crescimento de 69,35%, número que, se fosse uma árvore, já daria sombra.
E não se trata de um espasmo, mas de um movimento contínuo, pois apenas no último mês o crescimento foi de +21 empresas, superior ao dos demais estados do Nordeste, que avançam, sim, mas em ritmos mais modestos.
E é dessa diferença que se deve falar.
Porque liderar não é apenas estar à frente, é manter-se à frente enquanto os outros também caminham.
E a Bahia, hoje, não apenas caminha, ela puxa.
Da locomotiva que arrasta o conjunto
Houve um tempo em que se dizia, quase como metáfora, que a Bahia poderia ser a locomotiva do Nordeste, ideia defendida pelo senador Jaques Wagner, não como figura de linguagem, mas como direção estratégica.
Hoje, ao observar os dados, talvez possamos dizer que a metáfora ganha materialidade.
Porque uma locomotiva não é apenas aquela que avança, mas aquela que define o ritmo e conduz o movimento coletivo.
E essa condução encontra continuidade na ação firme do governador Jerônimo Rodrigues, que não apenas preserva essa direção, mas a aprofunda, transformando estratégia em política de Estado.
Da ordem das coisas no Nordeste
Se alguém desejar organizar o presente, encontrará o Nordeste disposto assim:
Primeiro, a Bahia, com 420 empresas
Depois, Pernambuco, com 385
Depois, o Piauí, com 299
Seguem Ceará (254), Maranhão (250), Rio Grande do Norte (222), Paraíba (164), Alagoas (145) e Sergipe (124)
Mas o que importa não é apenas a ordem, é a distância.
A Bahia lidera não apenas por posição, mas por diferença acumulada, crescimento consistente e maior base ativa, tornando-se o principal vetor de expansão do Inova Simples na região.
Daquilo que substitui o que já não serve
Há muito tempo, Schumpeter escreveu que o mundo avança destruindo aquilo que ele próprio construiu, e chamou isso de destruição criativa.
Hoje sabemos que esse movimento continua, e que são as empresas novas — frágeis, incertas, experimentais — que introduzem aquilo que substitui o que já não responde ao tempo.
O crescimento do Inova Simples não é apenas expansão.
É renovação econômica em curso.
Da capital que já não concentra tudo
E contudo, há deslocamentos.
Enquanto a Bahia cresce, Salvador já não concentra com a mesma força o protagonismo do ecossistema de inovação, e outras capitais nordestinas avançam, Recife, Fortaleza, Teresina, Natal, segundo dados do Observatório Sebrae de Startups.
Mas talvez isso não seja perda.
Talvez seja efeito.
Porque aquilo que antes se concentrava, agora se espalha.
A política de interiorização da inovação, iniciada ainda no governo Jaques Wagner, começa a produzir resultados: a inovação deixa de ser centralizada e passa a ser territorializada.
De como o crescimento deixa de ser acaso
Nada disso acontece sozinho.
Há método, há acompanhamento, há decisão.
O crescimento do Inova Simples na Bahia é fruto de um monitoramento minucioso e de uma ação intencional, conduzida pela Diretoria de Inovação e Competitividade da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação.
E quem escreve estas linhas não o faz como observador distante, mas como parte desse processo, que também constroem, no cotidiano da política pública, aquilo que agora se revela nos números.
Da disputa de narrativas sobre o empreendedorismo
Há também uma disputa, menos técnica e mais simbólica, sobre o significado do empreendedorismo.
É comum que setores da extrema direita tentem dissociar o empreendedorismo das políticas públicas, como se inovar fosse apenas um ato individual, isolado de qualquer ambiente institucional.
Mas a realidade mostra outra coisa.
Entre 2023 e 2025, o Brasil destinou R$ 50 bilhões para Ciência, Tecnologia e Inovação, com destaque para a reativação do FNDCT.
Além disso, financiamentos via BNDES e FINEP superaram R$ 29 bilhões em 2024, alinhados à estratégia da Nova Indústria Brasil.
No período anterior, entre 2019 e 2022, o investimento acumulado foi de cerca de R$ 26,3 bilhões, indicando um patamar inferior registrado pelo período governado pela extrema direita no país.
O que esses números revelam é simples:
inovação precisa de ambiente, de financiamento e de decisão política.
De como o Estado decide participar do futuro
Na Bahia, essa decisão se materializa na atuação da FINEP e da FAPESB.
O Programa Centelha III é exemplo disso:
- 981 ideias submetidas
- 229% de crescimento em relação a última edição
- 2.764 empreendedores envolvidos em cada proposta
- 114 municípios envolvidos
É desse conjunto que surgem as empresas que alimentam o Inova Simples.
Daquilo que se conclui sem encerrar
A Bahia cresce, e cresce mais que os outros, e essa diferença não é acaso.
É construção.
E ao crescer assim, talvez esteja cumprindo aquilo que antes era metáfora:
não apenas avançar,
mas conduzir,
não apenas liderar,
mas transformar.
E como toda locomotiva, não segue sozinha.
Ela arrasta consigo o futuro.
*Sócrates Santana é Diretor de Inovação e Competitividade da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia.
**Handerson Leite é Diretor Geral da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia.
***Edson Valadares é Assessor de Planejamento e Gestão da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia







