| Quando eu era criança sempre que se falava em arruda eu lembrava de sorte e mau-olhado. Eu não podia ficar com febre, com dores no corpo, que alguém tratava logo de dizer: manda rezar que é olhado. Aí eu ia à casa de dona Zú ou outra amiga da família e solicitava: mainha pediu pra senhora me rezar. A benzedeira acolhia-me e ia ao quintal da casa arrancar uma mistura de folhas, entre elas os galhos de arruda. Era um passar de folhas, um conversado baixinho que parecia um xingar de nomes. Eu não entendia nada, apenas queria ficar bom. O certo é que dias depois lá estava eu correndo e pintando travessuras pelas ruas de Santa Bárbara. Cresci com essa lembrança de que a planta traz sorte, do mesmo jeito que o trevo de quatro folhas traz sorte nos desenhos animados. Mas, como toda ilusão é uma eternidade enquanto perdura, eu tive essa cresça popular abalada com os escândalos do governo de Brasília. Primeiro acreditei que a justiça ia ser feita de imediato, porém percebi que a novela teria mais capítulos. Confesso que estava doido para responder alguns e-mails de um ex-colega militar, de estrema direita, que enviava toda semana comentários banais sobre as ações do governo Lula. Ele sabia que eu era vereador do PT e já mandava os e-mails com a vontade de ter uma resposta, contudo eu sempre lia e não respondia. Fazia isso porque a opinião dele era cega, então não teria cirurgia que curasse os olhos da alma. Depois da Caixa de Pandora nunca mais recebi um e-mail dele. Agora fiquei em dúvida se ele morreu ou passou a enxergar e percebeu que lá fora há um mundo belo para se viver e lutar. O governador do Distrito Federal cometeu vários crimes, mas como ele insiste em ficar no poder respaldado pelos deputados distritais envolvidos no esquema, também por promotores, procuradores, advogados, juizes e meu colega militar, então vou acusá-lo de outro crime: acabar com minha cresça popular sobre a arruda. Como pode um político carregar um nome de uma planta tão especial e não zelar por um costume popular tão antigo? Acho que quando o governador nasceu o médico olhou para ele e disse: esse tem cara de bandido. No mínimo a mãe ouviu e mandou colocar o nome Arruda para, pelo menos, dar sorte. Sei que tem um José no nome dele, mas esse detalhe deve-se a religiosidade cultivada por toda a quadrilha. Esses dias Arruda disse: eu perdoou todos os que estão me difamando, sei que as imagens são fortes e por isso entendo a todos, mas perdoou porque só assim poderei ser perdoado. Sei que o julgamento que todo corrupto deseja é pelas comissões de ética das câmaras, assembléias e senado, mas ele deve ser julgado pela cultura popular, pelos tribunais das benzedeiras, pois só assim teremos a certeza que vai ser penalizado. Declaro desde já que Arruda deverá mudar de nome. Vamos chamá-lo de videira-namibiana, papo-de-peru, que tem um cheiro intenso, tromba-de elefante, que possui o tronco cheio de espinhos, ou de flor-cadáver, a mais fétida do mundo. Por favor só não o chamem mais de Arruda. A plantinha não faz milagre. Afinal de contas, será que o DEM vai mudar de nome outra vez? Acho necessário para manter a identidade.
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